Dentro da igreja, quem manda é o celebrante. O que se pode e não se pode filmar decide-se numa conversa com ele antes da cerimónia começar, e varia de paróquia para paróquia: há quem deixe filmar de quase todo o lado, há quem indique dois pontos fixos e mais nada, e há quem não queira ninguém dentro do presbitério em circunstância nenhuma. A regra que uso é simples — pergunto, cumpro, e não discuto.
Esta é a parte do dia em que mais gente se porta mal com uma câmara, e é também a parte em que a discrição deixa de ser uma preferência estética e passa a ser respeito básico. Ninguém deve ter de desviar o olhar do casal por causa de um operador de câmara.
A conversa com o celebrante
Chego antes de a igreja começar a encher e procuro o padre ou o celebrante. Não me apresento como quem vem pedir autorização para uma lista de coisas: pergunto onde posso estar e onde não posso, e ouço.
Há três respostas típicas. A mais comum é indicarem uma zona lateral e pedirem que não se atravesse o corredor central durante a cerimónia. A segunda é serem mais restritivos e marcarem dois pontos onde eu posso estar, sem me mexer. A terceira, menos frequente, é darem liberdade quase total — normalmente em paróquias habituadas a casamentos.
Nunca discuti com um celebrante em minha vida por causa de conseguir melhores ângulos. Um plano bonito que se ganha à custa de o padre me olhar de lado a meio dos votos não vale o que custa, e quem paga a factura desse plano são vocês, não sou eu.
Vale a pena vocês também perguntarem, quando forem tratar dos papéis. Muitas paróquias têm regras escritas e ninguém as lê. Se souberem antes, eu planeio melhor.
Posições fixas, e porque é que isso é bom
Independentemente do que o celebrante permitir, eu trabalho quase sempre com as câmaras em posição fixa. Ponho-as nos sítios que ficaram combinados e deixo-as a trabalhar.
Isto tem uma consequência que digo com clareza: há ângulos que não vou ter. Aceito isso de bom grado.
Em troca, ganham-se três coisas. A cerimónia fica gravada do princípio ao fim sem cortes, o que é o que interessa para o filme documental. Ninguém na assembleia dá por mim, porque não há movimento nenhum a puxar o olhar. E o som fica a correr sozinho, sem depender de eu estar por perto.
Filmo esta parte com lentes longas, do fundo ou do lado. Uma lente longa a vinte metros vê melhor do que uma pessoa a dois metros e não incomoda ninguém.
O som é a razão pela qual isto tudo se aguenta
Se as câmaras estão paradas e eu não ando pela nave, tudo o que resta para transmitir a cerimónia é a voz. Por isso os microfones ficam postos muito antes de serem precisos, em mais do que um sítio, com gravadores independentes que continuam a trabalhar mesmo quando eu estou noutro lado.
Uma igreja tem uma acústica difícil — pé-direito alto, pedra, e uma reverberação que engole consoantes. Uma voz mal captada numa nave não se salva depois. Bem captada, é a coisa mais parecida com estar lá que um filme consegue dar, e é a parte que não se recupera se não ficar gravada nesse dia.
Isto inclui a música ao vivo. Um coro, um órgão, um violino. Custou a organizar, custou dinheiro, e é a primeira coisa a desaparecer num filme com música por cima.
O que não se faz e continua a fazer-se
Vale a pena dizer isto por escrito, porque toda a gente já viu acontecer.
Não se monta uma luz de vídeo dentro de uma igreja. A luz das janelas é quase sempre suficiente e, quando não é, o que se faz é abrir mais a lente e aceitar o que há — não iluminar o altar como um estúdio.
Não se sobe ao presbitério a meio dos votos. Não se atravessa o corredor central para apanhar a entrada de outro ângulo. Não se anda de câmara ao ombro a andar à volta do casal enquanto o padre fala. E o drone não voa — nem por cima, nem à porta enquanto a cerimónia decorre. Explico aqui quando é que faz sentido voar, e a cerimónia nunca é um desses casos.
Também combino isto com o fotógrafo antes. Numa igreja há dois ou três sítios bons e nós somos dois: se nos pusermos no mesmo eixo, apareço nas fotografias dele e ele aparece no meu filme.
Cerimónia civil e cerimónia ao ar livre
As regras formais são menores, mas o princípio mantém-se. Numa cerimónia civil há normalmente um conservador ou um celebrante com quem se fala na mesma, e há quase sempre menos espaço, o que obriga a decidir antes onde é que se fica.
Ao ar livre, o problema desloca-se todo para o som: não há paredes a devolver a voz, há vento, e há sempre uma estrada ou um cão a duzentos metros que ninguém ouve em directo e que se ouve muito bem na gravação. Por isso num jardim ponho mais microfones do que dentro de uma igreja, não menos. Falo mais sobre isso em quintas para casamentos no Minho.
O que isto significa para vocês
Que não têm de se preocupar com nada disto. A conversa com o celebrante faço-a eu, e faço-a antes de vocês chegarem à porta da igreja.
E que, se me virem parado do outro lado da nave sem me mexer durante quarenta minutos, é isso mesmo que está a acontecer. O dia inteiro, do meu ponto de vista, está contado na página de casamentos.

