E se chover no dia do casamento?

Filma-se na mesma. A luz fica suave, os guarda-chuvas dão planos que num dia de sol não existem, e o que muda é o plano do dia — não o resultado.

Se chover no dia do vosso casamento, filma-se na mesma e não é uma catástrofe. Casamentos com chuva estão entre os melhores que já filmei: a luz fica suave e uniforme, os guarda-chuvas dão planos que num dia de sol não existem, e há um tipo de cumplicidade entre as pessoas que só aparece quando o plano correu mal e toda a gente resolveu rir-se disso.

Sei que isto soa a consolação de quem é pago para aparecer aconteça o que acontecer. Não é. Vou explicar tecnicamente porque é que a chuva me facilita a vida, e depois vou dizer o que é que realmente muda no dia — porque também não é verdade que não muda nada.

Porque é que a chuva dá melhores imagens

A primeira razão é a luz. Um céu carregado é o maior difusor que existe. A luz vem de todo o lado ao mesmo tempo, não faz sombras duras, não fecha os olhos a ninguém e não queima o branco do vestido. Num dia de sol às três da tarde, eu ando a fugir da luz e a procurar sombra; num dia de chuva, filmo onde quiser.

Num casamento de sol forte há sempre um compromisso: ou a cara fica bem exposta e o céu fica branco, ou o céu fica bonito e as pessoas ficam escuras. Com nuvens esse compromisso desaparece.

A segunda razão é a cor. A chuva satura tudo. O granito das quintas minhotas fica escuro e com desenho, o verde do jardim fica verde a sério, e o chão molhado devolve luz e reflexos que num dia seco não existem. Um pátio de quinta à noite, molhado, com as luzes da festa a espelharem-se no chão, é dos planos mais bonitos que este trabalho tem para dar.

A terceira razão são os guarda-chuvas. Não é um detalhe estético — muda a composição toda. Um grupo de convidados debaixo de guarda-chuvas à porta de uma igreja tem forma, tem camadas e tem movimento. Sem chuva é um grupo de pessoas de pé.

A razão que interessa mais e não é técnica

Um casamento com chuva desarma as pessoas.

Quando o dia corre exactamente como estava planeado, toda a gente se comporta como estava planeado. Quando chove, o plano vai por água abaixo à frente de toda a gente, e a partir daí ninguém está a representar. Há uma corrida do carro até à porta, há alguém a emprestar um casaco, há a tia a segurar o guarda-chuva sobre o penteado de outra pessoa e não sobre o dela. As pessoas riem-se de outra maneira quando as coisas correm mal.

E como eu não peço a ninguém para repetir nada, é precisamente esse material que me chega inteiro. Se eu vos pedisse para voltarem a correr do carro até à porta, o que ficava gravado era a segunda vez — e na segunda vez já toda a gente sabe que está a ser filmada, já toda a gente endireita as costas, e ninguém se ri igual.

O que muda de verdade

Muda o plano do dia, e isso resolve-se na hora com o fotógrafo e com a quinta. A hora do retrato costuma ser a que mais sofre: passa para dentro, ou espera-se por uma aberta, ou faz-se em metade do tempo. Vale a pena decidirem depressa em vez de esperarem que pare, porque quase nunca pára à hora certa.

Muda a cerimónia, se era ao ar livre. É aí que a decisão tem de ser tomada cedo — normalmente de manhã — e é a quinta que sabe melhor do que ninguém quanto tempo demora a montar o plano B.

E muda o drone. Com chuva a sério, não voa, ponto final. Não é uma questão de coragem, é que não deve. Escrevi sobre quando faz sentido voar e quando não, e a chuva está do lado de não.

Do meu lado, o equipamento está preparado para trabalhar à chuva e eu também. Levo protecções, levo panos, e levo sempre dois corpos de câmara comigo mesmo quando estou sozinho — um deles nunca é usado se o outro não falhar. Também levo mais uma muda de roupa, o que é menos interessante mas resolve mais problemas do que parece.

A única coisa que vos peço

Que não passem o dia a pedir desculpa pelo tempo.

É a reacção mais comum e é a única coisa que a chuva estraga mesmo. Já filmei noivas a olhar para o céu de dez em dez minutos com cara de derrota, e isso vê-se no filme muito mais do que a água. A chuva não estraga um casamento; um casal desiludido com o próprio dia estraga.

Ninguém se vai lembrar daqui a dez anos que estava a chover. Vão lembrar-se de quem lá estava. E, se quiserem que eu seja honesto sobre a minha parte, os planos que vos vão fazer chorar a ver o filme não dependem do céu — dependem de ter estado no sítio certo às nove da manhã, que é uma das razões por que chego tão cedo.

Uma nota sobre o plano B

Quando visitarem a quinta, peçam para ver o plano B em vez de aceitarem que existe. Já filmei em plano B que era uma tenda com uma parede de plástico à frente do único ponto de luz decente, e já filmei em plano B melhor do que o plano A. Não custa nada perguntar e muda o que eu consigo fazer nesse dia.

O resto das dúvidas práticas do dia — deslocação, horas, segunda câmara — está respondido nas perguntas frequentes.