Chego aos preparativos cedo — normalmente antes de estarem à minha espera — por duas razões. A primeira é técnica: preciso de ver de onde vem a luz e onde é que me consigo pôr sem estar no meio, e isso não se faz com a casa cheia. A segunda é a que interessa mais: a hora dos preparativos é a mais silenciosa do dia e a mais desprotegida, e é de lá que saem os planos que vos fazem chorar a ver o filme.
É a parte do dia que os casais mais subestimam quando estão a contratar e a que mais vezes referem quando recebem o filme. Vale a pena explicar o que lá acontece.
A primeira meia hora não é a filmar
Quando entro numa casa, a primeira coisa que faço não é apontar a câmara a ninguém. É dar uma volta.
Quero saber por onde entra a luz e a que horas. Uma janela virada a nascente numa manhã de Junho é uma coisa às oito e é outra completamente diferente às dez, e a diferença decide onde é que faz sentido acontecerem as coisas. Quero saber que divisões existem, quais são as que dão para trabalhar e quais são as que não dão. Quero saber onde é que me posso pôr para ver sem estar à frente de ninguém — e, sobretudo, onde é que não posso estar.
Também aproveito para tirar do plano as coisas que estragam uma imagem sem ninguém reparar: um saco de plástico, um carregador em cima da cómoda, uma cadeira encostada onde não devia. Não arrumo a casa e não vos vou pedir para arrumar. Tiro duas ou três coisas e ponho-as de volta.
Isto tudo demora meia hora e é meia hora bem gasta. Se chegar à mesma hora que toda a gente, passo a primeira hora a descobrir a casa em vez de a filmar.
Porque é que os preparativos valem tanto
Porque as pessoas ainda não estão em modo de casamento.
Mais tarde, na igreja e na festa, toda a gente sabe que está a ser vista. Endireitam-se as costas, arranja-se o cabelo, sorri-se para o lado certo. Isso não é defeito de ninguém — é o que qualquer pessoa faz.
De manhã ainda não. Ainda há alguém a passar uma manga a ferro. Ainda há o vosso pai sentado à espera sem saber o que fazer com as mãos. Ainda há a discussão pequena sobre o nó da gravata, a mesa de maquilhagem desarrumada, o vestido pendurado numa porta antes de alguém lhe tocar. E há o momento em que a vossa mãe vos vê vestidos pela primeira vez.
Esse momento acontece uma vez só. Se eu vos pedir para o repetir, o que fica gravado é a segunda vez — e na segunda vez já toda a gente sabe que está a ser filmada e ninguém chora igual. É por isso que não peço nada nesta hora. Se perdi um plano, perdi o plano, e compenso com atenção, não com repetições.
Como filmo esta parte
Quase toda com lente longa, do outro lado da sala. Uma lente longa a oito metros vê melhor do que uma pessoa a dois, e não interrompe nada.
Não monto luzes, salvo excepção rara. A luz de uma janela é sempre melhor do que qualquer coisa que eu leve, e uma luz montada no meio de um quarto muda o comportamento de toda a gente que lá está.
E o som já está a gravar. Não porque vá usar tudo, mas porque as melhores frases da manhã são ditas por alguém que não estava a contar dizê-las, e não há maneira de as antecipar.
Muitos casais dizem-me depois que só perceberam que eu tinha estado lá quando viram o filme. É esse o objectivo, e é a mesma razão que faz com que, se forem tímidos à frente da câmara, esta seja provavelmente a hora do dia em que se vão sentir melhor.
Quanto tempo antes, na prática
Depende da hora da cerimónia e de quantas casas há. O mais comum é chegar duas a três horas antes de sair para a igreja ou para a quinta.
Se os dois se preparam em casas diferentes, e se são perto uma da outra, faço as duas — e é aí que a margem encolhe. Se forem longe, ou se as duas casas tiverem coisas a acontecer ao mesmo tempo, é uma das situações em que faz sentido levar um segundo operador. Falamos disso quando me disserem como vai ser o vosso dia.
Há uma coisa que vos peço e é a única: digam-me a verdade sobre as horas. Toda a gente atrasa e não faz mal nenhum, mas se me disserem que saem às onze e o plano real é meio-dia, eu chego às oito e passo três horas à espera — e chego a meio do dia com menos energia do que devia. Prefiro a hora verdadeira.
O que não vou fazer nesta hora
Não vou pedir para pendurar o vestido noutro sítio para ficar melhor. Não vou pedir para repetirem a entrada da vossa mãe no quarto. Não vou juntar toda a gente para um plano de grupo antes de saírem, a não ser que peçam.
Se precisarem de mim para alguma coisa, chamem. De resto, façam como se eu não estivesse.
O dia inteiro, hora a hora e do meu ponto de vista, está contado em este guia, e a maior parte do que sai dos preparativos acaba no teaser que chega em 72 horas. A página de casamentos explica o resto da maneira como trabalho.

