O que se perde quando o som de um casamento não é gravado a sério são as vozes: os votos ditos por vocês e não resumidos, o celebrante tal como falou, o brinde do vosso irmão antes de lhe falhar a voz, a música que tocou mesmo na igreja. Nada disto se recupera depois. Se não ficar gravado nesse dia, acabou nesse dia — e é a única parte do casamento de que isso é verdade.
É a parte que quase ninguém pergunta quando contrata vídeo e é a que faz metade da diferença. Toda a gente pergunta por câmaras. Quase ninguém pergunta por microfones.
Porque é que o som desaparece e a imagem não
A imagem de um casamento é redundante. Se eu falhar um plano, há o fotógrafo, há os telemóveis dos convidados, há a memória visual das pessoas. Um casamento é fotografado por sessenta pessoas ao mesmo tempo, mesmo quando ninguém pediu.
O som não tem nada disso. Ninguém no casamento está a gravar áudio limpo. Os telemóveis dos convidados gravam a sala, não a voz — quem já tentou ouvir um discurso gravado do fundo de um salão sabe exactamente do que estou a falar. E a memória das pessoas guarda o sentido do que foi dito, não o timbre de quem o disse. Passados cinco anos, ninguém se lembra de como soava a voz de alguém. Passados quinze, essa é justamente a parte que faz falta.
Os três momentos que se perdem primeiro
Os votos. Se o som vier só da câmara, a dez metros de distância, vão ouvir uma sala. Vão perceber que alguém está a falar e não vão perceber o que disse. Muitos filmes de casamento resolvem isto pondo música por cima dos votos — e isso não é uma escolha estética, é uma forma elegante de esconder que o som não foi gravado.
O brinde. É quase sempre o melhor som do dia inteiro e o mais difícil de captar, porque acontece num salão cheio, com pratos, com o eco alto do tecto, e sem aviso. A pessoa levanta-se e começa. Quem não tiver microfone posto antes de a pessoa se levantar, já perdeu o princípio.
O celebrante. Padre ou não, é a voz que dá forma à cerimónia. Com a acústica de uma nave e as pausas certas, uma homilia bem gravada é a coisa mais parecida com estar lá que um filme consegue oferecer. Mal gravada, é ruído com reverberação.
E há um quarto que ninguém antecipa: a música ao vivo. Um coro, um violino, um órgão. Custou dinheiro, custou a organizar, e é a primeira coisa a ser substituída por uma canção escolhida num computador dois meses depois.
Como eu gravo
O princípio é simples: o som anda sempre à frente do resto.
Os microfones ficam postos muito antes de serem precisos. Não a tempo — muito antes. Um microfone que se põe quando o momento está a começar já perdeu o momento.
Grava mais do que um sítio ao mesmo tempo, sempre. E são gravadores independentes, que continuam a trabalhar mesmo quando eu estou noutra sala a filmar outra coisa. Uso material Rode e Tascam, e a razão de haver mais do que um sistema não é vaidade: é que a gravação boa é a que sobrevive. Prefiro ter três gravações do mesmo momento a ficar sem nenhuma.
Numa cerimónia isto é ainda mais importante, porque as câmaras ficam em posição fixa nos sítios combinados com o celebrante e eu não ando por lá. O som tem de conseguir trabalhar sozinho do princípio ao fim, sem depender de eu estar por perto. Explico as regras da igreja em detalhe aqui.
O que acontece ao som depois
O filme curto leva música por cima, porque é isso que um filme curto pede. Um teaser de um minuto com o som real do dia não funciona, e seria desonesto fingir o contrário.
Mas o som original fica todo guardado. Não é material de segunda: é o material de onde nasce o filme documental — excertos largos da cerimónia e da festa com o áudio como ele foi, sem cortar para caber num tempo. É o formato que existe precisamente por causa disto, e é o que mais gosto de fazer.
No filme final, o som ocupa uma fatia grande da montagem: limpar o que está sujo, equilibrar vozes gravadas em sítios diferentes, fazer com que a igreja soe a igreja e o salão soe a salão sem que ninguém tenha de mexer no volume. É trabalho que ninguém nota quando está bem feito e que toda a gente nota quando não está. É também uma das razões por que o filme final leva 60 a 90 dias.
O que fazer com isto, mesmo que não seja comigo
Se estão a avaliar propostas, ponham auscultadores e vejam um filme inteiro de cada pessoa. Não um teaser — um filme final completo. E ouçam a cerimónia.
Se ouvirem as vozes limpas, perceberam o que estão a comprar. Se a cerimónia tiver música por cima do princípio ao fim, façam a pergunta directa: como é que grava o som na cerimónia? A resposta certa fala de microfones postos antes, de mais do que uma fonte, de gravadores que trabalham sozinhos. Se a resposta for “gravo com a câmara”, já sabem o que vão ter.
É a pergunta mais reveladora que existe neste negócio e está na lista das que recomendo em como escolher um videógrafo. Fazer-lha custa dez segundos e diz-vos mais do que uma hora de portefólio.
Do meu lado, o dia inteiro está contado por extenso na página de casamentos, e o som tem lá um capítulo só para ele.

